
"A Ayahuasca salvou-me". Foi com estas palavras, transportadas por uma voz coberta de emoção, que a Eduarda resumiu, sem exagero, a sua jornada com esta bebida ancestral. Ao ouvir esta afirmação tão forte, percebi que não é apenas a sua convicção, mas que cada célula do seu corpo sente essa realidade.
Antes de prosseguir, um breve aviso: este texto não será curto. Por duas razões. Primeiro, porque estou intelectual e emocionalmente implicado no tema. Diz-me respeito de forma íntima, como deixo escapar na Cena 0, quando me descrevo como alguém “habitado pelas questões da existência e da consciência”.
Depois, porque o Em Cena, à medida que cresce, começa a revelar com mais nitidez aquilo a que vem: dar rosto a pessoas e às suas histórias, e tocar, com subtileza, em temas que raramente encontram espaço no quotidiano. As fotografias podem ser diretas, quase literais; mas os textos que as acompanham pedem outro tempo, outra respiração.
Leiam isto assim: como uma pausa no meio do scroll apressado. E… boa leitura.

Crescida no seio de uma família humilde, onde um pequeno restaurante típico sustentava os dias e as esperanças, a Eduarda encontrou nos estudos o seu território de afirmação. Foi no rigor académico que começou a desenhar o seu lugar, não apenas na família, mas dentro de si. Como se houvesse uma urgência silenciosa, quase uma promessa íntima, de provar aos pais, e sobretudo a si própria, que o caminho podia ser outro…e que seria capaz de o percorrer até ao fim.
Essa ambição levou-a ao Direito, que concluiu com distinção, abrindo-lhe as portas de um meio exigente, onde passou a exercer rodeada de decisões e clientes de grande responsabilidade. A combinação entre uma disciplina quase obsessiva pelo sucesso e uma competência rara fez o resto. Com esforço mas também naturalidade, foi subindo, degrau a degrau, e conquistou o estilo de vida com que sempre sonhou.
Com pouco mais de 30 anos, esta menina do mar parecia ter tudo no lugar: um casamento feliz, uma casa de sonho, viagens, um mundo aberto diante de si.
Mas a vida não é linear e raramente avisa quando muda de rumo. O trabalho, que ocupava mais espaço do que devia, começou a desgastar o que parecia sólido. O casamento acabou por se desfazer, deixando um silêncio difícil de habitar. E, talvez não por acaso, a vida começou a empurrá-la para lugares mais sombrios numa tentativa, ainda sem forma, de dar resposta à tristeza e ao vazio que lhe iam conquistando terreno.

E é desconcertante como, de um momento para o outro, as circunstâncias podem arrancar alguém do topo e atirá-lo diretamente para o abismo. Em poucos anos, como Ícaro que ousou voar demasiado perto do sol, a Eduarda viu as asas cederem…e caiu. Afundou-se numa depressão profunda, onde a ideia de deixar de existir começou a surgir, vezes demais, como um sussurro persistente.
Mas, como se diz, é na noite mais escura que começa a desenhar-se o amanhecer. Serpenteando entre pequenas sincronicidades, quase impercetíveis mas decisivas, a vida levou-a até um pequeno coletivo de propósito, um grupo de pessoas unidas por uma busca comum de crescimento interior.
E foi num retiro desse círculo que deu o primeiro passo numa nova travessia: o encontro com a Ayahuasca.
A Ayahuasca, ou “medicina/remédio” como muitos lhe chamam, é uma bebida ancestral originária dos povos indígenas da Amazónia. Esta bebida é essencialmente uma decocção (fervura prolongada) de duas plantas: uma contendo a substância psicoativa - DMT - e a outra com um inibidor que impede que a MAO, uma enzima presente no organismo, degrade o DMT e permita que ele chegue até ao sistema nervoso central.
Os rituais com Ayahuasca, são geralmente conduzidos por um guia, que pode ser um xamã, ou por facilitadores, normalmente com formação tradicional, para entregar a bebida a cada participante e acompanhar durante o processo. A duração da experiência depende do contexto, mas pode variar entre 4 a 8 horas desde a sua ingestão. O que acontece neste período de tempo tem tanto de fascinante como de avassalador.

Habitualmente, alguns momentos após a ingestão, a pessoa passa por um processo de "purga": o corpo reage com vómitos, diarreia, suores frios, bocejos… Estas manifestações variam em qualidade e intensidade. No contexto cerimonial, esta reação não é vista como um efeito colateral da medicina, mas sim como parte integrante e necessária da "viagem". É a manifestação física do repelir do mal que assola a pessoa, e há algo de profundamente antigo neste gesto: a ideia de que o corpo guarda aquilo que a mente não conseguiu digerir, e que a cura passa, literalmente, por expulsar o que ficou retido.
Os povos que há séculos convivem com esta planta não a tratam como substância, mas como mestre. E como qualquer mestre exigente, a Ayahuasca não oferece conforto imediato: pede entrega antes de revelar. A purga é o preço de entrada, e simultaneamente a primeira lição: a de que não há transformação sem rendição, não há luz sem primeiro atravessar aquilo que escolheríamos não olhar. Quando o corpo finalmente se aquieta, resta uma espécie de silêncio limpo, uma disponibilidade que a vida normal raramente permite. É nesse silêncio que a medicina começa, de facto, a falar.

Esta é talvez a dimensão mais difícil de traduzir para quem nunca a viveu. As visões chegam, por vezes geométricas, por vezes figurativas, por vezes habitadas por presenças que a pessoa reconhece sem conseguir explicar como. Quase todos os relatos convergem num ponto fascinante: a Ayahuasca não parece ser vivida como substância, mas como entidade. Fala. Mostra. Pergunta. E o que pergunta raramente é confortável. A pessoa vê-se colocada diante de si própria com uma nitidez que a vida comum nunca permite: memórias que tinha esquecido, feridas que julgava resolvidas, verdades sobre si que o quotidiano educou a manter fora de vista. Não há fuga possível, porque quem foge e aquilo de que se foge habitam, ali, o mesmo corpo.
É por isto que tantos descrevem a experiência como uma década de psicoterapia condensada em horas. Mas uma psicoterapia sem a cortesia das palavras, sem o ritmo lento da conversa, sem a possibilidade de desviar o olhar. E, paradoxalmente, é precisamente essa brutalidade que a torna clemente: não há tempo para as defesas habituais, para os racionalismos que protegem o sofrimento em vez de o dissolver. No meio disso tudo, emerge uma sensação perturbadora e libertadora ao mesmo tempo…a de que aquilo que se está a viver é mais real do que a vida normal. Como se o dia-a-dia fosse a sombra, e ali, naquelas horas, se estivesse finalmente diante da coisa em si.

Há algo que quase todos os relatos partilham, e o da Eduarda não é excepção: a de ver o ego como quem vê uma casa por fora, depois de ter vivido a vida inteira lá dentro sem saber que havia um fora. Não é uma ideia nova. De Heráclito aos contemplativos budistas, passando mais tarde por Alan Watts, muitos apontaram para a mesma intuição incómoda: aquilo a que chamamos "eu" é menos uma substância e mais uma narrativa, uma construção útil mas não essencial. O que a Ayahuasca parece oferecer é uma experiência direta daquilo que estes pensadores tentaram descrever em tratados inteiros.
O ego não é destruído; é visto. E essa pequena distância entre quem observa e aquilo que sempre se julgou ser é, muitas vezes, o que abre espaço para a transformação. O regresso é onde a experiência se joga verdadeiramente — a medicina mostra, mas é a vida que integra. E integrar significa, quase sempre, traduzir o que foi visto em pequenos atos: escutar sem preparar a resposta, pedir desculpa sem cálculo, estar presente sem performar. O ego não desaparece (e talvez nem seja desejável que desapareça) mas passa a ser um companheiro reconhecido, não um ditador invisível.

Quando a Eduarda fala da sua relação com a Ayahuasca, há uma certeza que não precisa de argumentos: a de que o que viveu naquelas horas a devolveu a si própria. Depois de várias consagrações, o mundo deixou de ter o mesmo contorno. A vida de antes, que se media por títulos, conquistas e endereços, perdeu densidade. Não desapareceu, apenas deixou de ocupar o lugar onde nunca deveria ter estado: o centro.
E se há algo que estas imagens tentam dizer sobre ela, é uma palavra só: liberdade. Não a liberdade fácil dos discursos motivacionais, nem a liberdade de quem não tem compromissos. É outra coisa. É a liberdade de quem já se viu por dentro e não precisa de continuar a fingir. De quem atravessou o abismo e voltou com menos peso, porque aprendeu a distinguir o que é seu do que apenas carregava por hábito. É uma liberdade que se nota no corpo antes de se notar nas palavras…na forma como ocupa o espaço, como sustenta o olhar, como se move.

A Eduarda adora dançar. E depois de a conhecer, percebi que a dança, para ela, não é passatempo nem exercício. É declaração. É o seu interior a encontrar forma fora do corpo, sem precisar de passar pelo filtro das palavras ou pela censura da razão. Quando dança, não está a representar liberdade; está a sê-la. E talvez seja por isso que decidiu fazer disso um dos seus caminhos de missão: criou o projecto "Mulheres que Dançam", um espaço onde outras mulheres podem redescobrir o próprio corpo como território de expressão, não de avaliação. Em paralelo, conduz o "TODAS EM UMA SÓ 🌹", o seu projecto com maior relevo: uma mentoria que parte de uma intuição simples e profunda - que dentro de cada mulher habitam muitas, e que a cura passa, muitas vezes, por acolher todas as versões que as compõem em vez de escolher apenas uma.

Há ainda uma dimensão que não posso deixar de fora, porque seria desonesto fechar este texto sem a nomear. Em Portugal, a Ayahuasca ocupa um lugar ambíguo: o DMT, o seu princípio psicoativo, está listado como substância controlada, e o enquadramento legal do seu uso cerimonial permanece cinzento, sem reconhecimento claro das tradições que há séculos a utilizam como medicina. Isto coloca quem a procura, e sobretudo quem a partilha, numa espécie de silêncio forçado, como se a experiência tivesse de ser vivida às escondidas, mesmo quando tantos, como a Eduarda, a descrevem como aquilo que os devolveu à vida.
Entretanto, a ciência vai-se aproximando daquilo que os povos amazónicos sempre souberam: estudos recentes em centros como o Imperial College of London ou a Universidade Johns Hopkins têm mostrado resultados promissores no tratamento da depressão resistente, do trauma e das dependências, com psicadélicos em geral e com a Ayahuasca em particular. O que era marginal começa a ser investigado; o que era folclore começa a ser factual.

Por isso, dar rosto e voz à Eduarda é, também, dar rosto a uma voz coletiva que tem sido silenciada. A de quem encontrou cura onde a medicina convencional já tinha baixado os braços. A de quem preferia não ter de falar disto em código. A de quem sabe que o estigma nasce, quase sempre, do desconhecimento, e que a forma mais eficaz de o dissolver é contar a história, com o nome certo, com o olhar em frente.
A Eduarda não foi salva por uma substância. Foi salva pelo que a substância lhe mostrou, e pelo que ela teve a coragem de fazer com isso. O resto: a dança, os projectos, a forma como hoje acompanha outras mulheres, é apenas a vida a cumprir aquilo que a medicina lhe pediu, num silêncio limpo, há já algum tempo: que vivesse em coerência com o que lhe foi revelado.
